última atualização em 17 de agosto às 17h10
Manoela Penna, Assessoria CBJ, de Atenas

FLÁVIO CANTO CONQUISTA O BRONZE EM ATENAS

Judoca é o primeiro carioca a ganhar uma medalha olímpica no judô. Surfista nas horas vagas, lutador dedica conquista aos familiares e às crianças do projeto social Instituto Reação

O judoca meio-leve Flávio Canto conquistou nesta terça-feira, dia 17/8, a segunda medalha de bronze do judô nos Jogos Olímpicos de Atenas. Com o feito do carioca, o judô iguala a marca de 12 medalhas do atletismo e do iatismo, categorias mais vitoriosas do Brasil em Olimpíadas. Para ficar com o bronze, Flávio derrotou o polonês Robert Krawczyk com um waza-ari. Surfista nas horas vagas e praticante de yoga, Flávio Canto começou tarde no esporte, somente aos 14 anos, e em Atenas deu a volta por cima após ter sido reserva em Sydney-2000. A medalha olímpica foi a primeira conquistada por um carioca no judô.


"O judô é um esporte muito equilibrado e tive a sorte de ser um dos escolhidos para ganhar uma medalha aqui em Atenas. Eu sou só a ponta do iceberg, tem muita gente por trás dessa minha vitória. Com certeza vamos ter mais medalhas do judô aqui em Atenas", diz Flávio Canto.


O judoca destacou o projeto social que coordena na Favela da Rocinha e na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, com o nome de "Instituto Reação". Flávio dedicou a medalha às 400 crianças assistidas pelo projeto, que existe desde 2000.


"O Brasil é o melhor lugar do mundo para se fazer um projeto social, pois existem muitos sem nada e poucos com muito. Como no nosso pais o reconhecimento só vem com uma medalha olímpica, espero que esse bronze ajude a alavancar o Instituto Reação. Quando perdi a seletiva e fiquei fora da equipe titular em Sydney, decidi que ia mudar de vida, pois ficar apenas derrubando os adversários em campeonatos já não fazia sentido para mim. As crianças me motivaram a voltar a acreditar que poderia estar numa Olimpíada. Meu futuro é essa ONG, pois ela me faz ser uma pessoa melhor", afirma Flávio, que competiu barbudo, com o cabelo grande e pela primeira vez não pôde usar uma calça de lycra que utiliza por debaixo do quimono, já que tem alergia ao pano.


Dividindo quarto com o judoca Leandro Guilheiro, que nesta segunda-feira, dia 16/8, conquistou a primeira medalha do Brasil nos Jogos de Atenas, Flávio admitiu que não conseguiu dormir:


"Passei a noite em claro. Estava muito ansioso e preocupado na hora da pesagem, mas depois tudo correu bem e fui me soltando na competição".


Leandro Guilheiro ajudou Flávio Canto na hora mais difícil, quando o carioca sofrera a derrota para o russo, nas quartas-de-final.


"Disse para ele que a mesma coisa havia acontecido comigo e o final para ele seria igual. Que era a hora de zerar tudo e focar no bronze. Na véspera eu tinha contado para o Flávio que o último atleta a dividir quarto comigo numa competição foi campeão mundial", contou Leandro, lembrando da conquista de Leonardo Eduardo no Mundial Junior, em 2002.


O caçula da equipe de judô em Atenas também ajudou Flávio Canto de outra forma.


"O Wagner Castropil (médico da equipe de judô) veio me perguntar se eu iria precisar da minha medalha. Eu disse que não e ele a colocou no bolso durante as últimas lutas do Flávio. O meu bronze chamou o bronze para ele", revelou Leandro, dando destaque ao espírito de equipe que os judocas ganharam em Atenas.


Flávio também teve que superar problemas pessoais antes dos Jogos de Atenas, seu pai, Luiz Felipe, sofreu um infarto durante a preparação do judoca e teve que ser submetido a uma cirurgia para colocar cinco pontos de safena.


"A minha família foi sempre muito importante. Estou muito feliz que eles estão aqui do meu lado neste momento", destaca Flávio, que além do pai, pôde contar com a presença em Atenas da mãe, Maria Cecília, do irmão, Pedro, e da noiva, Bianca.


"O sucesso e o fracasso não demoraram mais de dois dias. Passei pelas duas situações e sei que vou continuar a levar minha vida normalmente após essa medalha".


AS LUTAS


Flávio Canto estreou com uma boa vitória nos Jogos de Atenas. Na primeira luta, contra o colombiano Mario Valles, Canto venceu com um golpe de estrangulamento. Em seguida, passou por Aleksei Budolin, da Estônia. Aleksei foi bronze no Mundial do Japão em 2003 e nos Jogos de Sydney-2000, além de ter no currículo um vice-campeonato no Mundial de 2001. Nas quartas-de-final, Canto perdeu para o russo Dmitri Nossov e ficou fora da disputa pelo ouro.


"A vitória contra o Aleksei Budilin foi importante, por todos os títulos que ele tem, mas fui burro na luta contra o russo. Mudei a tática e acabei perdendo", assume, Flávio.


Porém, Canto voltou para a disputa da repescagem muito focado e, mesmo com um início de luta difícil contra o italiano Roberto Meloni, conseguiu um ippon. Na luta seguinte, que definiria a classificação para a disputa do bronze, Canto entrou com a concentração no máximo e em 27 segundos aplicou o ippon mais rápido dos Jogos contra o sul-coreano Young Woo Kwon. Na luta pelo bronze, Flávio bateu Robert Krawczyk, da Polônia, com um waza-ari depois de começar perdendo por um yuko.

PERFIL

Tido como um dos judocas brasileiros de melhor técnica no solo, Flávio Canto começou tarde no esporte: apenas aos 14 anos, incentivado pelo irmão, que já fazia judô.


"Eu sabia que tinha começado tarde. Sempre tive que correr atrás e botei na cabeça que precisava treinar dobrado", diz Canto, que conseguiu conciliar os treinos e competições com a faculdade e hoje é formado em Direito.

NOME: Flávio Vianna de Ulhôa Canto

DATA E LOCAL DE NASCIMENTO: 16/04/75, em Oxford/Inglaterra

PESO: 81kg

ALTURA: 1,79m

CLUBE: Gama Filho/RJ

CATEGORIA: Meio-Médio (até 81kg)

PRINCIPAIS RESULTADOS:

Ouro nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo (2003)

Ouro no Torneio de Ranqueamento Olímpico da Argentina (2003)

Ouro nos Jogos Sul-Americanos (2002)

Pentacampeão sul-americano (1995, 96, 97, 98 e 2000)

Tri-campeão Pan-Americano (1997, 99, 2003)

Prata nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg (1999)

Bronze nos Jogos Pan-Americanos de Mar del Plata (1995)

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